Frida Kahlo: contra o mito

Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?

Por Blog Marias e Severinas

São tantas as imagens construídas em torno da imagem de Frida Kahlo que é difícil destacar apenas uma. Pintora mexicana nascida em 1907, ela é conhecida por sua história de vida sofrida, por seu temperamento forte, por seus quadros vibrantes e amargurados e por seu posicionamento político revolucionário. Todas essas imagens têm sido apropriadas ao longo da história com objetivos diferentes. A ideia aqui é apresentar algumas dessas apropriações e desvendar os propósitos envolvidos em cada uma delas.

Alguns dos fatos marcantes da vida da artista são bem conhecidos. Aos seis anos de idade Frida contraiu poliomielite, a primeira de uma série de doenças que afetariam sua saúde. Aos dezoito anos sofreu um grave acidente: o bonde em que estava se chocou com um trem que passava na rua. O para-choque de um dos veículos perfurou suas costas e atravessou sua pélvis. Em 1928 entrou para o Partido Comunista mexicano e conheceu o famoso muralista Diego Rivera, com quem se casou no ano seguinte.

A afirmação de que as obras da artista refletem toda a dor e o sofrimento que marcaram sua vida é bastante comum. Entretanto, seu trabalho compreende uma dimensão que vai além da documentação biográfica. Ele foi capaz de influenciar os debates sociais e políticos da época ao criticar a regulação dos modelos de conduta de gênero, ao trazer novos elementos para a construção da denominada “mexicanidade” e ao negociar o papel das mulheres artistas mexicanas em um contexto pós-revolução.

Esses questionamentos trazidos pela obra da artista têm sido encobertos em detrimento de um selo “Frida Kahlo” apropriado pela indústria cultural. Desde 2002, nos Estados Unidos, foram exibidas pelo menos seis exposições sobre Frida, foram publicadas quatro novelas inspiradas na sua vida, estrearam quatro peças de teatro, quatro óperas e três balés baseados em sua biografia. Sua imagem passou a ser idolatrada como se ela fosse uma estrela de cinema ou uma cantora de rock, com direito a posteres e camisetas. Mais recentemente, a banda “Coldplay” lançou um CD chamado “Viva la Vida” inspirado na obra da artista. A cantora Madonna também não escondeu sua admiração pela pintora mexicana ao expressar o seu desejo de estrelar um filme sobre a vida de Frida.

Essa mercantilização da figura de Frida Kahlo contribui não apenas para a transformação de sua pintura em algo trivial, convertendo-a em um objeto de adoração superficial, mas também para neutralizar a carga política da sua obra, ignorando seus aspectos mais incômodos ou subversivos, como apresentado anteriormente. A ideia de que Frida Kahlo é um exemplo de superação a ser seguido se encaixa muito bem com uma imagem a ser vendida.

Por tudo isso que foi exposto até aqui, é necessário ressignificar a obra de Frida Kahlo. É preciso retomar sua capacidade de estremecer nossas certezas, de quebrar nossos discursos e de questionar nossa realidade. A vida da artista deve ser vista como mais do que um drama heroico, o que, no fim das contas, serve apenas para alimentar o mito que envolve a figura da artista e para reforçar sua projeção comercial.

A obra de Frida Kahlo e o mito criado com base nela são aspectos inseparáveis. No entanto, as imagens construídas em torno da figura da artista podem e devem superar a dicotomia entre heroína e vítima. Seu mundo foi caracterizado, assim como o de todos nós, por uma série de contradições, ambiguidades e dúvidas. O resultado disso é uma obra que ainda hoje produz curiosidade, uma obra complexa, ambivalente, difícil, emocionante e intensa. Uma obra que é capaz de questionar as verdades estabelecidas, a despeito do conceito que a indústria cultural pretende vender.

“Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?”


Referências bibliográficas:
MAYAYO, Patricia. Frida Kahlo, contra el mito. pp. 11-58.

Fonte:
https://mariaseseverinas.wordpress.com/2013/10/05/frida-kahlo-contra-o-mito/