Aline Webber é entrevistada da revista 360°

A relações públicas caxiense Aline Webber é a entrevistada da matéria de capa da última edição da revista 360°

Por Camila Moschen

A relações públicas caxiense Aline Webber é a entrevistada da matéria de capa da última edição da revista 360°. Radicada em Florianópolis, ela coordena o Comitê de Gênero e Raça da Eletrosul, e participa de importantes debates sobre o empoderamento feminino por todo território nacional. A publicação traz ainda matérias sobre cultura, negócios e comportamento. A distribuição da revista é gratuita e você pode solicitar através do nosso contato ou fazendo o download da versão digital.

Confira abaixo a íntrega da entrevista:
 

Como surgiu a oportunidade para participar de um projeto que estimula o empoderamento feminino?

O Comitê de Gênero e Raça da Eletrosul foi criado há 10 anos, atendendo recomendação do Ministério de Minas e Energia, por meio da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), com o objetivo de contribuir para a implementação de políticas que promovam a igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, no âmbito das relações de trabalho, incentivando concepções e práticas igualitárias de gestão. As empresas do setor de Minas e Energia tem em seu quadro o predomínio de funcionários do gênero masculino. A Eletrosul, por exemplo, tem 80% de homens em seu quadro. Eu entrei no Comitê há 5 anos para auxiliar nas ações de comunicação. Quando a última Coordenadora se aposentou há 3 anos, ela me convidou para assumir o lugar dela. No inicio fiquei com medo, porque não conhecia muito do tema, e sei que ele é muito polêmico e você fica taxada de chata, de ativista, até de homossexual. Mas o comitê é formado por aproximadamente 15 pessoas, dos diversos departamentos dentro da empresa, que deram o suporte para que as ações continuassem.
 

As ações tem sido bem aceitas?

Fazemos muitas ações para os empregados da empresa, como cursos, palestras, campanhas. Sabemos que o trabalho é de formiguinha, alguns são abertos ao tema, mas uma grande parte ainda tem o discurso de que as mulheres já conquistaram o seu espaço, levantam a bandeira da meritocracia. O que não entendem é que meritocracia só existe para quem sai do mesmo ponto e tem as mesmas condições. As mulheres estão no mercado de trabalho há muito menos tempo que os homens. Em uma empresa como a nossa, baseada na mão de obra masculina, é como apostar uma corrida e sair dois quilômetros atrás, é óbvio que o homem vai chegar primeiro. No ano passado, a Eletrosul aderiu ao movimento HeforShe/ElesporElas da ONU Mulheres. Esse movimento convida os homens a assinarem um compromisso pela igualdade de gênero, como defensores e agentes de mudança. Eles são encorajados a agir contra as desigualdades enfrentadas por mulheres e meninas. Ao conversar com alguns homens, eles me disseram que assinariam porque era politicamente correto, não porque acreditavam que as mulheres sofressem qualquer discriminação ou desigualdade. Uma ação que deu muita repercussão positiva na empresa e até para a mídia, foi a implantação da Sala de Apoio ao Aleitamento Materno. Essa sala é destinada às mulheres que retornam da licença maternidade. A intenção é que elas possam durante o horário de trabalho, com privacidade e segurança, retirar o leite, armazená-lo em local adequado e depois levá-lo para casa, aumentando o período de amamentação do filho. Antes as mulheres tinham que tirar o leite no banheiro da empresa, sem qualquer estrutura para isso e acabavam deixando de amamentar. Você pode ver que são ações que qualquer empresa pode fazer.
 

Você se considera feminista?

Sim. Sou feminista. Vale lembrar que o feminismo é um movimento social, econômico e político que tem como objetivo conquistar o acesso a direitos iguais entre homens e mulheres. Feminismo não é o contrário do machismo, que é o comportamento, expresso por opiniões e atitudes que favorece e enaltece o sexo masculino sobre o feminino, recusa a igualdade. Feministas não odeiam os homens, odeiam a cultura machista patriarcal na qual vivemos. Sempre esteve atenta a alguns comportamentos “machistas” ou passou a ver e analisar as situações com outro olhar após se aprofundar nestas questões? Desde pequena a gente sabe que existe diferença entre homens e mulheres e sente as desigualdades. Quem nunca achou injusto quando a mãe diz que nós mulheres é que temos que lavar a louça? Mas com o passar do tempo acaba se acostumando que o mundo é assim e aceita o lugar que nos colocam como mulher. Esse lugar de ser a cuidadora, de ser a que não entende de matemática, a que não sabe dirigir, a que não sabe mandar, dentre outros. Depois que eu entrei no Comitê de Gênero e Raça da Eletrosul e comecei a ler mais sobre o tema, a participar de cursos, palestras e discussões é que eu comecei a entender que isso não está correto, que eu não preciso ficar nesse lugar que querem nos colocar e o mais importante é que eu tenho que lutar para que os outros também enxerguem isso.
 

O que você aprendeu que gostaria de compartilhar?

Que um mundo melhor para as mulheres é um mundo melhor para os homens também, essa luta tem que ser de todos (as).
 

Quais mulheres te inspiram?

Michelle Obama, Beyoncé, a escritora Nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, Malala Yousafzai, no Brasil, Marcia Tiburi, Clara Averbuck, Juliana de Faria do Think Olga. Temos muitas, vale a pena conhecer. Minhas avós e minha mãe me inspiram muito também. Mulheres fortes que trabalharam muito, criaram filhos e conseguiram se impor dentro das possibilidades e conhecimentos delas.
 

Como estimular o empoderamento feminino?

Eu acredito que a principal forma é pelo conhecimento, muitas mulheres não conseguem enxergar a sociedade machista em que estão inseridas, acabam se submetendo e muitas vezes repetindo as atitudes machistas por desconhecimento. Nós mulheres temos que nos ajudar umas as outras, a palavra da vez é sororidade, nos vermos como irmãs. Precisamos também começar dentro de casa com nossos filhos, parar de ensinar que o pai é quem manda e a mãe é a bondosa, que o serviço doméstico é para a mulher, que a menina tem que se dar o respeito, sem ensinar o menino a respeitar. Dentro das empresas vale dar uma olhada nos sete Princípios de Empoderamento das Mulheres da ONU Mulheres.
 

Como é lutar pelas mulheres?

Não é fácil. Como eu falei, você é muitas vezes rotulada como a chata, a “mimimi”, a “mal amada”, a “sapatão”, e quem rotula não são só os homens, muitas mulheres também. Essa é a parte mais difícil, entender que muitas mulheres são machistas e trabalham contra a sua luta. Mas vale a pena, quando você ouve depois de um curso um homem dizendo que realmente não estava fazendo sua parte em casa; quando uma mãe vem agradecer pela Sala de Apoio ao Aleitamento que lutamos para implantar na empresa; quando as pessoas veem o seu trabalho e querem fazer parte do Comitê de Gênero da empresa porque acreditam na causa.
 

Quais as principais dúvidas das pessoas em relação ao assunto?

São muitas. A primeira é que a maioria das pessoas não sabe o que é feminismo. Eu também não sabia quando comecei no Comitê de Gênero. Ninguém tem a obrigação de saber, mas tem muita gente que é “contra” sem nem saber o que significa. Outra dúvida que eu ouço de homens e mulheres é por que ainda existe o feminismo se não existe desigualdade. Muitos dizem que feminismo é coisa do século passado. Isso é mera falta de informação, se as pessoas pesquisassem um pouquinho na internet já veriam números alarmantes (veja o quadro na página 31).
 

Já sofreu discriminação por ser mulher?

Já fui preterida em uma vaga de emprego porque tinha que viajar, e uma mulher sozinha na estrada é perigoso. Mas se é perigoso para mulher é perigoso para homem também, não é? Outra coisa frequente são as piadinhas, “ela está de TPM”, “com esses olhos claros, você nem precisa falar muito”, “não tem cadeira, pode sentar aqui no meu colo”, sempre tentando inferiorizar a mulher. E a discriminação é muito pior para as mulheres negras.
 

Por que ainda existe desigualdade entre gêneros?

Porque ainda vivemos numa sociedade machista e patriarcal, onde o homem é visto como provedor e protetor e trata a mulher como um ser inferior, que deve servir. A desigualdade entre homens e mulheres é um fator histórico e não acontece só no Brasil ou só nas classes inferiores. O Fórum Econômico Mundial avalia indicadores econômicos e sociais de 145 países em seu relatório sobre a desigualdade de gêneros no mundo, no qual categorizou o Brasil na posição 85º.
 

O que fazemos para mudar isso?

Como diz a escritora Nigeriana Chimamanda: “nós devemos todos(as) ser feministas”, a luta pela igualdade deve ser de todos(as). Todos podemos aprender sobre feminismo na internet, é grátis, fácil e prático. Só para citar alguns sites: Blog da Lola, Think Olga e Blogueiras Feministas. Além disso, é muito importante instruir a nova geração, desde cedo, em casa. Educar no sentido da igualdade, estimulando as meninas a não serem submissas, acabar com estereótipos de que a mulher não entende de números, são frágeis, não sabem comandar. Uma mulher também tem que dirigir e trabalhar fora, e homens também tem que cuidar dos filhos, limpar a casa e cozinhar. Começa por ai, mas as empresas e o poder público também têm que fazer a sua parte. Assim como a minha empresa, outras também podem constituir Comitês de Gênero, ações assim são muito boas para o clima interno, para a imagem da empresa, para relatórios empresariais e principalmente para um mundo melhor para todos nós.




Crédito: Israel Martins Boschetti / Foto: Aline Webber conferindo a revista em que é destaque na matéria de capa