A busca constante por Inovar

Eu falo exatamente sobre essas questões da dificuldade que pessoas um pouco mais velhas, conservadoras ou com um mindset analógico têm de entender a possibilidade das mudanças no mundo digital

Por Fernanda Tatsch

O entusiasta das novas tecnologias Marcos Piangers, 35 anos, alia o trabalho ligado à área digital ao modo analógico de viver a vida depois do expediente. Pai de duas filhas, Anita, 10, e Aurora, 3, o catarinense de Florianópolis é formado em jornalismo e trabalha a comunicação jovem de forma transmidiática, buscando levar a mensagem de que há infinitas possibilidades no futuro tecnológico, basta estar preparado para isso.

Piangers começou a atuar em comunicação no ano de 2001 na RBS de Santa Catarina com o programa Na Pilha e, em 2002, passou a fazer parte da Rádio Atlântida. Ele também compôs a equipe da atração Patrola e do Kzuka, braço jovem da emissora. Em 2013, foi convidado a trabalhar na área de digital da Rádio Atlântida. Atualmente, é responsável pela inovação nas emissoras do Grupo RBS e coordena a área digital, de vídeo, branded content e impresso da Rede Atlântida.

Além disso, Piangers realiza palestras sobre criação e novas tecnologias desde 2013. Hoje, possui dois painéis: “Inovação: Uma Espiada no Futuro” e “Criatividade: Fora da Caixa, Dentro da Caixa”. “Estudo muito as transformações que as tecnologias estão causando na nossa sociedade e sou um defensor otimista de empreendedorismo digital”, ressalta. Confira, a seguir, uma entrevista exclusiva com Piangers.

Como surgiu o interesse pela tecnologia?

Meu interesse por tecnologia vem desde 2001, quando eu comecei a trabalhar na RBS. Desde então, toda a minha comunicação e a minha vida profissional são voltadas para o mundo digital.

O estudo sobre inovação e tecnologia é constante?

Eu estudo esse tema diariamente, lendo artigos e me envolvendo com players de mídia do mundo todo. Eu sempre tento entender o que eles estão fazendo, quais ferramentas estão usando e quais as tendências para a distribuição de mídia. Produção de conteúdo tem a ver com o momento que a gente está vivendo.

Como observa os avanços tecnológicos atuais?

Durante 100 anos, construímos indústrias em cima de soluções, mas o que observamos com a chegada da internet, especialmente com o mobile, são novas soluções para problemas antigos. Normalmente, são jovens com um mindset novo, que já nasceram nesse ambiente digital e, consequentemente, possuem ideias digitais. Eu tenho 35 anos e vivi numa época em que ainda não existia internet. Veremos toda uma geração surgindo que vai trazer novas soluções, como aquela primeira que enxergou o mundo sem energia elétrica. Talvez a minha geração e a das pessoas mais velhas do que eu tenham dificuldade para entender o que a internet pode trazer de impacto. Esses jovens já têm o mindset preparado para o momento em que a internet vai mudar tudo, como já vem mudando.

Quais são os principais pontos da palestra “Inovação: Uma Espiada no Futuro”?

Eu falo exatamente sobre essas questões da dificuldade que pessoas um pouco mais velhas, conservadoras ou com um mindset analógico têm de entender a possibilidade das mudanças no mundo digital, em que a distribuição é gratuita e a produção de conteúdo não está mais na mão de poucos. A gente fala muito de disruptores e controladores. Os controladores são essas indústrias estabelecidas que passaram décadas controlando e conquistando espaço. Os disruptores são indústrias muito jovens, ágeis, baratas e com um custo muito baixo de distribuição. Eles ganham tração não com a publicidade, mas com o boca a boca, porque o serviço é muito bom. Focadas no produto, são empresas que não estão nem aí para leis, regulamentações e concorrência. Elas estão ali para a conveniência do usuário. Isso faz delas players com uma vantagem muito grande em um ambiente digital que a gente vive hoje. É sobre isso que eu falo, pincelando o que a gente vai ver em um futuro muito próximo, como inteligência artificial, carros autônomos e, é claro, uma mudança completa nos controladores de mídia.

Você participa do The South Southwest (SXSW), um festival de inovação e tecnologia que acontece em Austin, no Texas. O que destacaria do evento?

É um evento muito grande, tem cerca de 100 palestras por cada horário. Eu já assisti a palestras do Google, da área de inovação dentro do Facebook, do YouTube, do Al Gore, de chefes de estado, de cientistas e de futuristas. Eu acho importante ir a um evento desses porque, se você vai fazer um curso hoje de um ano focado no digital, provavelmente no final tudo aquilo que você aprendeu no começo mudou. Tendências de aplicativos, de wearables, ingestibles, de inteligência artificial, tudo isso muda de seis em seis meses. Toda a estratégia da sua empresa para competir com esses caras de tecnologia tem também que mudar de seis em seis meses.

Quanto ao mercado como um todo, é necessária uma mudança de paradigma para se adaptar ao novo mundo da tecnologia?

A tecnologia está esfarelando o valor de muitas commodities. Então, você percebe o Uber, uma empresa mundial, esfarelando o valor de cooperativas de táxis. O mesmo acontece com o Facebook para a distribuição e consumo de mídia. Você vê um player mundial dominando um mercado que antes gerava muito mais emprego e oportunidades. O que a gente precisa é entender que em um futuro muito próximo existirão várias empresas fazendo a mesma coisa. Temos que entender que tecnologia e internet vão passar por todas as áreas que a gente conhece e que, certamente, muitos empregos vão desaparecer e outros vão surgir.

As redes sociais estão revolucionando o conceito de comunicação humana? Para onde estão nos levando?

Muita gente questiona a qualidade do texto, da interação hoje em dia entre as pessoas, mas o fato é que não há como negar o valor de uma rede mundial de informação e que reúne todas as pessoas ao mesmo tempo por meio de smartphones. É importante que exista a tecnologia e que ela ande para frente. Você pode odiar smartphones e televisão, achar que tudo isso está lhe distanciando da família. Eu acho que é uma atitude muito nobre você dizer não para tudo isso para dar mais valor a sua família. É importante que as pessoas tenham cada vez mais informação e condição de lidar com informação. Eu sou a favor da democratização dos acessos aos meios de comunicação, à produção de conteúdo e à informação. Eu quero que a minha filha saiba de conteúdos, por vezes, avançados, mas é importante que estejamos muito perto das crianças para acompanhar o que elas estão lendo.

O uso em excesso de smartphones apresenta um contraponto: aproximar pessoas distantes, mas distanciar pessoas próximas. Como você observa isso?

Eu acredito que temos o perigo de chegar a um futuro em que iremos nos comportar como aquelas pessoas retratadas no filme Wall-E, no qual a civilização sujou a Terra com poluição e lixo e, para escapar disso, foi preciso ir para uma nave onde estão gordas, olhando para os seus tablets, assistindo a filmes e tomando milk-shakes. Aquilo, na verdade, é muito próximo do que a gente já vive hoje na frente de telas o tempo todo, jogando videogames, vendo televisão, nos tablets, smartphones e, num futuro muito próximo, ainda com óculos de realidade aumentada. Teremos que nos questionar ainda mais sobre a profundidade dessa imersão na tecnologia. As inovações tecnológicas precisam ser questionadas sempre que evoluem, precisamos dar um passo atrás e é natural que tenhamos medo nesse primeiro momento da tecnologia.

Você observa que as marcas que possuem maior proximidade com o cliente via redes sociais possuem um desempenho melhor?

Estamos ainda em um momento muito preliminar de entender as redes sociais. Ainda temos essa diferenciação de mídias digitais e mídias tradicionais e de vida virtual e vida real. O que vemos é que cada vez mais estão misturadas e precisaremos ter uma gestão de marca pessoal. A presença virtual tem de ser tratada com mais seriedade por diversas empresas. Vemos cada vez mais startups comprometidas em melhorar o acesso do consumidor comum aos profissionais melhor avaliados. Vamos observar cada vez mais engenheiros, marcas, empresas, arquitetos e médicos dentro de sistemas de avaliação, como vemos hoje avaliação para lugares com o Foursquare e de filmes com o IMDB e o Netflix.

Sobre a palestra “Criatividade: Fora da Caixa, Dentro da Caixa”, para você, como fazer as coisas diferentes, de forma dinâmica e inovadora dentro de empresas tradicionais?

Percebemos hoje a General Motors investindo meio bilhão de dólares no Lyft, que é um concorrente do Uber, justamente pensando em daqui a dez ou 20 anos. Eles compram participações em startups muito capacitadas para o futuro para que possam se modernizar e se preparar para o que vem por aí. Do ponto de vista profissional, vemos uma ascensão da classe criativa. É cada vez mais importante as pessoas desenvolverem seu lado criativo, visto que os robôs estão tomando conta de todas as áreas mais braçais. Esse é um assunto que vem desde a Revolução Industrial, naquela época em que as máquinas começaram a tomar conta disso. Muitas pessoas foram contra as máquinas, eram os chamados ludistas, e a gente vê hoje em dia os ludistas digitais, pessoas que acreditam que os robôs, a inteligência artificial, as máquinas e as redes sociais vão roubar muitos empregos e acabar com o ganha-pão de muitas famílias. Historicamente, as pessoas mais criativas e os empreendedores conseguem sempre achar caminhos para evitar que as máquinas acabem com a indústria econômica. Há previsão de que a inteligência artificial ultrapasse a inteligência humana em 50 anos.

Você tem “gurus” ou referências em relação à criatividade e à inovação?

Eu gosto muito do Astro Teller, que comanda a área de inovação do Google; do Elon Musk, empreendedor serial que fez o Paypal e a Tesla e é muito bom na forma de analisar o mercado e olhar para o futuro; do Peter Thiel, um dos primeiros investidores do Facebook; do Gary Vaynerchuk, que do ponto de vista de mídia consegue prever o que vai acontecer muito bem; do Nicholas Negroponte, futurista muito interessante; e do Peter Diamandis, fundador da Singularity, uma escola de inovação do Google em parceria com a Nasa.

Como você se vê daqui a 10 anos?

Daqui a dez anos eu gostaria muito de ter a experiência de morar fora do Brasil, porque eu tenho muito medo da violência que a gente vive hoje aqui. Gostaria muito de que pessoas como eu, que usam seu esforço criativo e impacto econômico para ajudar outras instituições, pudessem fazer a diferença aqui. Infelizmente, o que eu vejo é que vivemos em um país que tem um funcionamento crônico muito equivocado, de corrupção crônica e de deseducação generalizada. Isso me deixa muito triste. Eu gostaria muito de morar fora do país e dar essa oportunidade para minhas filhas.

O papai é Pop

Marcos Piangers lançou em 2015 o best-seller “O Papai é Pop”, livro que já vendeu mais de 50 mil exemplares e fala sobre a sua maior paixão: ser pai. Piangers cresceu somente com a presença da mãe, o que o apresentou um ponto de vista feminino do mundo e influenciou a escrita do livro. Além disso, foi inspiração o convívio diário com a esposa e suas duas filhas. Apesar de viver cercado de tecnologia, Piangers abriu mão de se manter conectado em casa. Ele disse não ter videogames ou tablets e mantém as filhas distantes do computador, pois isso “tiraria tempo de qualidade” entre a família. A seguir, ele aborda o sucesso alcançado com o livro.

Como foi a repercussão do lançamento do livro na sua vida? Como impactou na sua relação com as suas filhas?

Nós temos tentado levar as coisas do jeito mais simples possível. Eu tento manter as meninas longe da internet porque pode ser um ambiente bastante nocivo, seja por comentários de pessoas muito malvadas, seja por pessoas que interpretam mal ou que podem de alguma forma chegar nelas de maneira violenta. Ao mesmo tempo, eu sei que é impossível proteger de tudo e tento sempre conversar para entender qual é a visão delas a respeito de tudo isso que está acontecendo. Com muita conversa a gente tenta evoluir.

Como você imagina que estará inserida a tecnologia nas relações humanas quando suas filhas estiverem com a sua idade?

Eu acredito muito que elas não dirigirão carros, vão poder chamar um Uber ou um Lyft – que trará um carro autônomo. Esse carro a deixará aonde quer que ela esteja ou queira ir de forma segura. Acho que cada um dos carros vai ter uma característica, será possível chamar um carro específico para assistir à televisão, para receber uma massagem, para ouvir rádio ou ter algum tipo de experiência gastronômica. Acredito que vamos ter a inteligência artificial muito evoluída. As máquinas nos ajudando muito a fazer as tarefas do dia a dia. Penso que perderão valor os locais, as fronteiras e que veremos cada vez mais empresas globais atuando. Isso vai fazer com que precisamos ter leis e regulamentação globais. Acredito que a tecnologia vai ganhar cada vez mais força e, quando minhas filhas tiverem 35 anos, a minha idade, eu espero do fundo do meu coração que elas vivam numa sociedade mais igualitária, com igualdade de gênero, de raça e com mais oportunidade para as pessoas que hoje têm poucas ou sofrem algum tipo de preconceito social.